Considerada sem precedentes na Europa Central, a descoberta casual de uma vala comum em Viena, na Áustria, com restos mortais de supostos guerreiros do Império Romano do século 1, chamou a atenção da comunidade científica. Os corpos de 129 indivíduos, encontrados em outubro de 2024, demonstram como o passado romano continua emergindo em contextos modernos.
Desenterrados por uma equipe de trabalhadores da construção civil que reformavam um campo de futebol, no bairro de Simmering, os restos mortais podem estar ligados a “um evento catastrófico em um contexto militar”, segundo especialistas do Museu de Viena. A análise arqueológica da sepultura coletiva, apresentada publicamente na quarta-feira (2), e é um indício do primeiro combate conhecido naquela região.
Encontrados entrelaçados, os esqueletos tinham também vários ossos deslocados, um sinal, segundo os arqueólogos, de que o número final de mortos pode ultrapassar 150. Para a líder da escavação, Michaela Binder, “Existem enormes campos de batalha na Alemanha onde as armas foram encontradas. Mas encontrar os mortos, isso é único para toda a história romana”. Isso porque os seus soldados eram normalmente cremados, prática que durou até o século 3.
Comprovando que a vala comum foi um campo de batalha

A sepultura onde as ossadas foram depositadas indica um enterramento apressado de vítimas de combate. Os esqueletos examinados revelam lesões no crânio, tórax e pelve. Durante a apresentação, a arqueóloga-chefe de Viena, Kristina Adler-Wölfl, explicou: “São diversos ferimentos de batalha, excluindo execução. É um autêntico campo de batalha. Encontramos marcas de espadas, lanças e traumas contusos”.
Todos os combatentes eram homens, em sua maioria entre os 20 e 30 anos, com boa saúde bucal. A datação por carbono-14 situou os restos humanos entre 80-130 d.C., o que foi confirmado pelos artefatos encontrados junto aos corpos, como armaduras, peças de capacetes e as famosas sandálias militares usadas pelos legionários romanos (caligae).
Mas o indício mais revelador veio de uma antiga adaga enferrujada, cuja tipologia é específica das utilizadas em meados do primeiro século até o início do segundo. Esta prova material, somada aos ferimentos identificados e ao perfil demográfico das vítimas, confirma o contexto de confronto militar entre forças romanas e tribos germânicas naquela região.
A descoberta do assentamento inicial de Viena

Com as pesquisas em andamento, por enquanto, apenas um dos 129 indivíduos teve, até agora, confirmação clara de que era um soldado romano, identificado por seus equipamentos militares característicos. Quanto aos demais corpos, a expectativa dos arqueólogos é que análises de DNA antigo e de isótopos de estrôncio nos dentes e ossos ajudem a revelar origens geográficas e a afiliação militar das vítimas.
Para Adler-Wölfl, “A teoria mais provável no momento é que isso está ligado às campanhas do Danúbio do imperador Domiciano – que é de 86 a 96 d.C.”. Baseada em artefatos e datações preliminares, a hipótese sugere que os corpos pertenciam a um evento militar entre romanos e germânicos.
Além da vala, foram identificadas estruturas da fundação de Vindobona, o assentamento romano precursor da capital austríaca. Para os arqueólogos, essa descoberta em particular ressalta a ocupação contínua da área, vinculando a presença das legiões romanas a um desenvolvimento urbano inicial.
Este provável combate acontecido em Viena aconteceu no auge do Império Romano, um período de relativa paz e estabilidade interna. Para conhecer mais sobre essa era, conheça cinco guerras que ameaçaram essa Pax Romana.