Confusão mental, sensação de pânico, visão embaçada, dificuldade para respirar e taquicardia foram alguns dos sintomas apresentados por pessoas que estavam em uma manifestação contra o governo em Belgrado (Sérvia), no último sábado (15). De acordo com os participantes, as reações surgiram após o uso de armas sônicas pelos policiais.
Vídeos compartilhados no X (Twitter) e Instagram mostram os manifestantes se dividindo repentinamente ou fugindo apavorados após um som estridente surgir do nada. No momento em que o barulho foi ouvido, as cerca de 300 mil pessoas faziam 15 minutos de silêncio em homenagem às vítimas do desabamento em uma estação de trem local.
Chilling footage from Belgrade, Serbia where a military grade sonic energy weapon was used against the people to disperse the crowds.
Watch how everybody is there just doing their silent protest… then the blast wave from the energy weapon rolls in. pic.twitter.com/3DJgtTrUVv
— Project TABS (@ProjectTabs) March 17, 2025
Em entrevista à DW, participantes do ato contaram que o som perturbador se assemelhava ao barulho de um jato voando baixo, acompanhado de vibrações, dando a sensação de que havia algo se aproximando. A reação da multidão foi imediata, com pessoas perdendo os sentidos momentaneamente.
Muitos manifestantes começaram a correr, gerando um princípio de tumulto, embora não haja informações sobre feridos. Os sintomas causados pela suposta arma sônica em Belgrado duraram cerca de um minuto, mas algumas pessoas continuaram a sentir enjoo, dor de cabeça e tontura, precisando ir ao hospital no dia seguinte.
O que são e como funcionam as armas sônicas?

Consideradas não letais, as armas sônicas disparam ondas sonoras com uma taxa de alta pressão ouvidas a vários quilômetros, afetando principalmente quem está próximo à fonte de emissão, que pode ser um alto-falante comum adaptado para soar alto. Um dos sistemas com essa técnica é o Dispositivo Acústico de Longo Alcance (LRAD).
Também conhecido como canhão de som, ele emite ruídos extremamente altos, de até 160 decibéis — o motor de um caça gera 130 decibéis na decolagem, enquanto uma conversa vai a 60 decibéis. Sons acima de 100 decibéis são desconfortáveis e qualquer barulho acima de 120 decibéis pode causar dor.
Os barulhos emitidos por armas sônicas podem causar danos permanentes à audição, dependendo do nível do ruído, da proximidade e da exposição. Também é possível que ocorram danos psicológicos como os relatados pelos manifestantes na Sérvia, levando a vítima a ter a sensação de que está sendo perseguida.
Apesar de classificada como não letal, já que o uso é indicado para o controle e a dispersão de multidões, a arma sônica pode ter consequências seríssimas em determinadas situações, levando ao rompimento de órgãos internos.
Outra possibilidade para o incidente em Belgrado é o uso de um canhão de vórtice. Segundo a organização Earshot, a análise dos vídeos postados nas redes sociais indica que o som emitido contra os manifestantes saiu deste tipo de arma, que funciona expelindo gás em alta velocidade para produzir som semelhante ao de um avião.
No entanto, o armamento que também é usado para disparar tintas ou produtos químicos com forte odor ou incapacitantes contra participantes de protestos, depende de dispositivos grandes e pesados. Como não houve relatos de aparelhos do tipo no evento, especialistas contestam a hipótese.
Governo sérvio nega o uso de canhão de som

O presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, negou o uso de armas sônicas contra a multidão durante os protestos. Ele também afirmou que os militares do país não possuem esse tipo de dispositivo e que convidará autoridades dos Estados Unidos e da Rússia para participar da investigação do caso.
Mesmo com o governo sérvio tratando as alegações como mentira, a administração federal tentou alterar a lei que proíbe o uso de canhões de som para o controle de multidões no país, em 2022, sem sucesso. Conforme o especialista militar, Aleksandar Radic, a legislação sérvia não permite utilizar os dispositivos nessas situações.
Equipamentos como o LRAD têm sido usados por navios cargueiros para impedir ataques de piratas na Somália e também há relatos de utilização pelas polícias da Grécia em 2021, para dispersar migrantes, e dos EUA em 2009, para afastar manifestantes contra a cúpula do G20. Na Segunda Guerra, a Força Aérea alemã investiu em armas acústicas durante ataques aéreos.
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