Conforme os dados do Governo do Brasil, em 2021, o país teria gerado mais de 2,7 milhões de empregos formais, ou seja, aqueles com carteira assinada, em que o trabalhador encara uma jornada de acordo com a CLT (Consolidação das Leis de Trabalho).
Uma pesquisa do Bureau of Labor Statistics, mostrou que 39% da população dos Estados Unidos passou seu tempo livre trabalhando em 2020, em comparação com 43% da população de 2019. A escritora Annie Dillard, em entrevista ao Gettysburg College, afirmou que uma pessoa, em média, passará 90 mil horas trabalhando ao longo da vida. “Portanto, é seguro dizer que seu trabalho pode ter um enorme impacto na sua qualidade de vida”, observou ela.
Muito embora o número de horas de trabalho dos americanos, por exemplo, tenha diminuído nas últimas décadas, e o tempo de lazer aumentado relativamente, ainda é difícil para as pessoas perceberem isso. Mas por quê?
O que acontece
Durante uma palestra na TED Talks de 2017, Adam Alter, psicólogo da Universidade de Nova York, mostrou que as telas que cercam nosso cotidiano, como as dos celulares, televisores e computadores, são as responsáveis por consumirem a maior parte do tempo livre que conseguimos tirar quando não estamos trabalhando ou fazendo outro tipo de atividade.
Tendo como base os dados do Bureau of Labor Statisticas e do aplicativo Moment, que rastreia o uso de celulares, o gráfico mostrou que o sono e o trabalho ocupam dois terços do dia das pessoas todos os anos. O mesmo vale para atividades necessárias, como se alimentar e tomar banho.
(Fonte: Popular Science/Reprodução)
Segundo Alter, a sensação de diminuição do tempo começou, efetivamente, a partir de 2007, quando as telas consumiam poucos minutos do tempo livre. Durante sua conferência, o psicólogo instigou a plateia a repensar o quanto de tempo se dedicam aos seus aparelhos eletrônicos para qualquer finalidade que não seja fazer algo que realmente os relaxe.
Muito embora o mundo online e os eletrônicos conectem as pessoas, e proporcionem, invariavelmente, um tipo diferenciado de lazer, também levam à distração e à sentimentos de isolamento, reforçando a sensação de que aquela atividade livre, na verdade, não te acrescentou em nada.
O estresse em tentar relaxar
(Fonte: PRG Pharmacy/Reprodução)
Por outro lado, algumas pesquisas mostraram que ter e decidir como passar esse tempo livre pode acabar gerando ainda mais estresse. Isso porque as pessoas podem acabar se sentindo mais pressionadas a maximizarem o máximo possível desse tempo para conseguir se sentir, de fato, relaxada e fazendo algo produtivo que valha todo o gasto de energia e pensamento repetitivos de desejo.
“Nossa capacidade de comprar e desfrutar de bens e serviços, aumentou muito mais rapidamente do que o tempo disponível para desfrutá-los”, explicou o economista americano Daniel Hamermesh, em seu livro Spending Time: The Most Valuable Resource.
Com isso, Hamermesh pontua que as pessoas querem ter o melhor retorno de tudo devido ao quanto de dinheiro e minutos que se empenharam por isso. Melhores viagens, experiências cinematográficas, restaurantes, etc. Tudo para compensar que parece que estão eternamente correndo contra o tempo.
(Fonte: Reserva Ativa/Reprodução)
Isso tudo pode levar a horas de planejamento em algum sentido, seja passando pelo catálogo de um aplicativo de comida ou de streaming. Ainda que alguns cientistas enxerguem essa antecipação como um fator contribuinte para a felicidade, também desperta o sentimento evasivo de que o tempo livre acaba assim que começa.
“Uma coisa consistente sobre o lazer, no entanto, é que ele sempre foi contrastado com o trabalho”, disse Brad Aeon, professor assistente da Escola de Ciências da Administração da Universidade de Québec, em matéria à BBC.
Segundo Aeon, na Grécia Antiga, o lazer era um estado de espírito ativo, associado à liberdade, o que significava fazer bons esportes, estudar filosofia, entrar em debates e aprender teoria musical; enquanto o trabalho era atribuído à servidão, visto que aos escravos era endereçado todo tipo de tarefa, até as que consideramos básicas.
Desse modo, o lazer era um trabalho ativo, porém despertava um sentimento de gratificação. Para o professor, tudo mudou quando os romanos passaram a enxergar o tempo livre como uma forma de recuperação em preparação para mais trabalho, e isso se estendeu e foi incorporado nos aspectos sociais quando o período da Revolução Industrial chegou. O ócio se tornou a grande atividade dos ricos.
No final das contas, Selin A. Malkoc, professora associada de marketing da Fisher College of Business da Universidade Estadual de Ohio, acredita que aproveitar o tempo livre de maneira adequada possa ser algo que as pessoas passem a aprender em todos os aspectos, como aumentar a resistência gradualmente na academia. E talvez intercalar qualquer tipo de atividade proveitosa com o trabalho, ajude na frustração que o excesso de planejamento para o desconectar total possa gerar.
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